julianaohy@gmail.com • Whatsapp: 11 945232266/ 11 45861008 //  Rua Prof. Giácomo Ítria, 126, Anhangabaú - Jundiaí - SP 

Ai, meu Deus! Como está tudo esquisito hoje!
E ontem estava tudo tão normal. Será que mudei durante a noite? Deixe ver: eu era a mesma quando me levantei hoje de manhã? Estou quase jurando que me sentia um pouquinho diferente. Mas, se não sou a mesma, então que é que sou? Ah, aí é que está o problema!

 

Lewis Carrol.
Aventuras de Alice no País das Maravilhas (1865).

Um adolescente em minha vida

Esse trecho do livro nos mostra claramente a angústia pela qual o jovem adolescente passa, principalmente porque os ritos de passagem em nossa sociedade estão inexistentes, o que dificulta compreender as diversas mudanças que chegam tanto no corpo, como na esfera social e psicológica. Os rituais de passagem, de certa forma, avisam o indivíduo do que vem a seguir, numa próxima etapa. Não que saberíamos lidar melhor com os conflitos se esses rituais existissem, mas delimitar uma fase parece confortar mais aquele que se sente lançado numa realidade bem diferente da que até então vivia, a infância.

 

Em meio a todas essas mudanças, a família depara-se com dúvidas, inseguranças, sentimentos de impotência ao lidar com o jovem.

A família é a primeira instituição da sociedade, sendo provavelmente a mais antiga e mais importante. Inicialmente, como relação natural e espontânea. Posteriormente, diferenciando-se e chegando ao formato moderno de monogamia, introduzindo a esfera das relações privadas.

 

Atualmente, podemos dizer que a família tornou-se uma instituição fragilizada, vulnerável ao avanço da era da informática, com uma geração reunida em frente a máquinas e programas de televisão. As crianças, assim, sobrevivem apontando suas necessidades através das relações mal estruturadas que se seguem a partir disto.

 

Muitos pais queixam-se da falta de autoridade com seus filhos, que os mesmos não os respeitam. A queixa se faz verdadeira quando pensamos que, pais e filhos, dentro da sociedade atual, não possuem nada em comum, pois não se encontram. Filhos adolescentes testam os pais o tempo inteiro, vêem seus defeitos e vícios, falam sem medir, são diretos e os pais não querem ouvir, então evitam.

 

Freqüentemente, ouvimos dizer que um dos maiores problemas familiares é a falha na comunicação. Mas esse é apenas um dos aspectos dentro de um universo muito mais amplo. O relacionamento dentro da família está ligado à forma como as pessoas relacionam-se dentro da sociedade.

 

Manter-se socialmente em ambientes de convívio social como igreja, associações, clube, propicia manterem-se próximos dos filhos e dos amigos de seus filhos. Isso porque as amizades exercem um papel prioritário sobre a modelação da personalidade da criança e identidade do adolescente.

Mas afinal, quem é o adolescente?

 

Com poucas palavras, sem sentir necessidade em parecer claro e definitivo, Machado de Assis consegue descrever muito bem essa fase da vida, da qual, a característica principal é a inconstância em massa de todos os atos e sentimentos.

 

Vá a uma festa com “clima” de pouca luz, onde os adultos não podem estar na sala e a demonstração de afeto pelos pais é considerada inadequada. Você estará em um ambiente tipicamente adolescente. Isso será possível observar nas primeiras horas, porém, diversos outros aspectos caracterizam o jovem nessa etapa da vida, tais como:

 

- Substituição do vínculo de dependência simbiótica com os pais da infância, por relações objetais de autonomia plena;

- Estabelecimento de uma escala de valores ou código de ética próprios;

- Busca de pautas de identificação no grupo de iguais;

- Estabelecimento de um padrão de luta/fuga no relacionamento com a geração precedente.

 

A adolescência é uma fase de muitos conflitos, mas também de muitos encantamentos. Descobrem-se potencialidades, possibilidades infinitas. São os tempos de sonhos e paixões de aventurar-se; é quando o ser humano vive e se sente capaz de tudo.

 

Diante da complexidade que caracteriza esse momento da vida de um indivíduo, os pais não devem ser “super pais”, mas honestos com seus filhos, admitindo erros, principalmente.

 

Freqüentemente, os pais baseiam-se na culpa para controlar seus filhos. A culpa, nada mais é do que a transferência da nossa responsabilidade para o outro. Assim, pais culpados na educação que dão para os filhos, trarão conseqüências disso para a realidade desses jovens.

 

É importante que pais entendam que educar os filhos é ensiná-los a darem pequenos vôos e cuidarem de suas asas, para que, na adolescência, possam percorrer trajetos mais longos, rumo a jornada da vida adulta.

Está naquela idade incerta e duvidosa.

Que não é dia claro e já é o alvorecer;

Entreaberto botão, entrefechando rosa,

Um pouco de menina e um pouco de mulher.

 

Machado de Assis. Falenas (1839 – 1908)

Que os jovens modifiquem a sociedade e ensinem os adultos a ver o mundo em forma renovada: mas aonde existe o desafio de um jovem em crescimento que haja um adulto para encará-lo. E não é obrigatório que isto seja agradável.

 

D. Winnicott (1971)